Como entrar na universidade em Portugal sendo brasileiro: guia completo 2026
Atlas Team
4 de maio de 2026 · 16 min de leitura
Chegaste a Portugal há uns meses ou há uns anos, terminaste o ensino médio no Brasil (ou estás prestes a terminar) e agora bate aquela pergunta que ninguém parece responder de forma clara: "e agora, como é que eu entro na faculdade aqui?"
Boas notícias: tens razão em desconfiar de quem te diz que é simples. O sistema português é bastante diferente do brasileiro, e a informação oficial está espalhada por meia dúzia de sites institucionais que falam num "portuguesinho" técnico que, sinceramente, não ajuda ninguém.
Más notícias (mas só meias-más): a maioria dos brasileiros descobre tarde demais que existe uma decisão única no início do processo que pode poupar-lhes mais de 20.000 euros ao longo de uma licenciatura. Vou explicar-te tudo isso aqui, passo a passo, sem rodeios.
Este guia foi escrito para ti, brasileiro residente em Portugal, que queres entrar numa universidade pública pagando o mesmo que um português paga (e não cinco vezes mais).
O acesso ao ensino superior em Portugal: o que mudou e o que precisas saber
A diferença entre o sistema brasileiro e o português
No Brasil, fazes o ENEM, escolhes uma universidade e candidatas-te diretamente a essa instituição (ou via SISU, ProUni, etc.). Cada universidade tem o seu vestibular ou usa a nota do ENEM à sua maneira.
Em Portugal, é diferente. Existe um Concurso Nacional de Acesso (CNA) — uma candidatura centralizada e única — onde concorres ao mesmo tempo a até seis pares instituição/curso. Ou seja: numa só candidatura, podes pedir Medicina na Universidade de Lisboa, Engenharia Informática no Instituto Superior Técnico, e mais quatro opções. O sistema coloca-te na opção mais alta para a qual tens nota suficiente.
A nota com que concorres não vem só dos exames. Combina:
- A classificação do ensino secundário (a tua média do ensino médio brasileiro, depois de convertida para a escala portuguesa).
- A classificação das provas de ingresso (os exames específicos que cada curso exige).
Vamos por partes.
O fim da DGES e o novo IES, I.P.
Primeira atualização importante para 2026: a DGES (Direção-Geral do Ensino Superior) — aquela entidade que talvez já tenhas visto referida em todos os artigos sobre o tema — foi extinta. As suas funções passaram para o Instituto para o Ensino Superior, I.P. (IES, I.P.), no âmbito da reforma da Administração Pública.
Na prática, para ti pouco muda: o site continua a funcionar, os procedimentos e prazos mantêm-se. Mas se vires alguém a falar em "DGES" e a referir-se à instituição, fica a saber que estão a falar do organismo que agora é o IES, I.P. Por questões de simplicidade, e porque o nome ainda é o mais conhecido, ao longo deste guia vamos continuar a usar "DGES" — mas tens este aviso na manga.
O que é a nota de candidatura
A nota de candidatura é o número entre 0 e 200 com que vais concorrer. É calculada com uma fórmula que cada curso define à sua maneira, mas tipicamente fica assim:
- 50% a 65% — classificação do ensino secundário
- 35% a 50% — classificação das provas de ingresso
A nota mínima legal para acederes a qualquer licenciatura pública é 95 pontos (em 200). Mas não te iludas: isto é o piso legal. Em cursos com muita procura — Medicina, Engenharia Informática, Arquitetura — a nota de entrada pode subir até 190 pontos ou mais.
Qual é a tua via? (a decisão que muda tudo)
Esta é a parte que ninguém te explica bem. Antes de tratares de equivalências, exames ou candidaturas, precisas de saber qual é a tua via de acesso. Porque há duas vias completamente diferentes — e a diferença entre elas é de milhares de euros por ano.
Via 1: Concurso Nacional de Acesso (CNA)
É a via "como portuguesa". Concorres em igualdade com qualquer estudante português, fazes (ou substituis) provas de ingresso, e pagas a propina de estudante nacional.
Quem pode usar esta via? Brasileiros que estejam num destes três cenários:
- Residentes legais em Portugal há mais de 2 anos ininterruptos, contados até 31 de agosto do ano em que pretendem ingressar. Atenção: tem de ser tempo legal contínuo. Se tiveste hiatos entre autorizações de residência, o relógio reinicia.
- Beneficiários do Estatuto de Igualdade de Direitos e Deveres a 1 de janeiro do ano de ingresso (já te conto como pedir isto).
- Cidadãos com dupla nacionalidade — portuguesa ou de outro Estado-Membro da UE/EEE. Se tens passaporte português, italiano, espanhol, etc., entras automaticamente por aqui.
Via 2: Concurso Especial para Estudantes Internacionais
É a via para brasileiros que não cumprem nenhum dos requisitos acima. Nesta via, muitas universidades aceitam o ENEM diretamente (mais sobre isso já a seguir), o que parece tentador. Mas tem um custo: as propinas são significativamente mais altas.
A diferença que custa milhares de euros
Aqui está a parte que eu queria que ficasses com gravada na cabeça. Olha estes valores reais para o ano letivo 2025/2026 numa licenciatura pública:
- Universidade de Lisboa (qualquer licenciatura)
Estudante nacional: 697 €/ano
Estudante internacional: 3.500 € a 7.000 €/ano (varia por escola) - Faculdade de Ciências da ULisboa
Estudante nacional: 697 €/ano
Estudante internacional: 3.500 €/ano - Instituto Geográfico (IGOT-ULisboa)
Estudante nacional: 697 €/ano
Estudante internacional: 4.500 €/ano (2026/2027) - Politécnico de Lisboa
Estudante nacional: 697 €/ano
Estudante internacional: Varia por escola - ISCTE — Iscte Business School
Estudante nacional: 697 €/ano
Estudante internacional: Varia por curso (média 4.000 € a 7.000 €) - Faculdade de Direito da ULisboa
Estudante nacional: 697 €/ano
Estudante internacional: 1.500 €/ano
Ou seja, na maioria dos casos, um estudante internacional paga entre 5 a 10 vezes mais que um estudante nacional. Numa licenciatura de 3 anos, isto pode significar uma diferença de 15.000 a 25.000 euros.
E é por isto que o que o Gustavo (e tu, e todos os brasileiros que conheço) realmente quer não é entrar a qualquer custo — é entrar pela via certa.
O fluxograma para descobrires a tua via
Responde a estas perguntas pela ordem em que aparecem:
- Tens nacionalidade portuguesa ou de outro país da União Europeia?
- Sim → Via 1: Concurso Nacional. Não podes usar o ENEM. Vais ter de fazer exames nacionais portugueses (ou substituí-los).
- Não → próxima pergunta.
- Tens autorização de residência legal e contínua em Portugal há mais de 2 anos (a 31 de agosto do ano em que vais entrar)?
- Sim → Via 1: Concurso Nacional. Pagas como nacional. Vais ter de fazer (ou substituir) os exames portugueses.
- Não → próxima pergunta.
- Tens o Estatuto de Igualdade de Direitos e Deveres atribuído antes de 1 de janeiro do ano em que vais entrar?
- Sim → Via 1: Concurso Nacional. Pagas como nacional.
- Não → Via 2: Concurso Especial Internacional. Podes usar o ENEM, mas pagas propinas mais altas.
💡 Dica de quem já viu isto acontecer dezenas de vezes: muitos brasileiros descobrem tarde demais que precisam destes 2 anos de residência legal e contínua — e no momento da matrícula a universidade reclassifica-os como internacionais. Trata da papelada cedo.
Equivalência do ensino brasileiro: como funciona
Independentemente da via que escolhas, vais precisar de equivalência do ensino secundário. Sem isto, o teu diploma do ensino médio brasileiro simplesmente "não existe" para o sistema português.
O que é a equivalência
A equivalência é o reconhecimento oficial de que o teu certificado do ensino médio brasileiro corresponde ao ensino secundário português (12.º ano). É emitido sob a forma de um certificado de equivalência que indica:
- O teu curso brasileiro
- A tua classificação final, convertida para a escala portuguesa de 0 a 200 pontos
Como pedir a equivalência
Tens dois caminhos possíveis (regulados pelo Decreto-Lei n.º 227/2005):
- Numa escola pública de ensino secundário em Portugal, perto da tua área de residência.
- Diretamente na Direção-Geral da Educação (DGE), em casos específicos (consultar dge.mec.pt/equivalencias-estrangeiras).
A maior parte dos brasileiros faz pela escola secundária. Vais precisar de:
- Certificado de conclusão do ensino médio
- Histórico escolar completo
- Documentos com Apostila de Haia (essencial — sem isto, ninguém vai aceitar)
- Tradução, se necessário (no caso do português do Brasil, geralmente não é exigida, mas confirma com a escola)
- Documento de identificação
Conversão de notas: como o teu 8 vira português
A escala brasileira (0 a 10) é convertida para a escala portuguesa (0 a 200) com uma fórmula proporcional. De forma simplificada:
- Nota 6 no Brasil ≈ 110 pontos em Portugal
- Nota 7 no Brasil ≈ 130 pontos em Portugal
- Nota 8 no Brasil ≈ 150 pontos em Portugal
- Nota 9 no Brasil ≈ 170 pontos em Portugal
- Nota 10 no Brasil ≈ 190 pontos em Portugal
A conversão exata é feita pela escola portuguesa que processa o pedido, e considera o teu histórico ano a ano.
⚠️ Trata da equivalência cedo. O processo pode demorar 2 a 4 meses. Se queres entrar no ano letivo 2026/2027, devias estar a tratar disto agora, ou em janeiro/fevereiro no máximo.
Exames nacionais em Portugal: precisas mesmo de fazer?
Esta é a dúvida número um do brasileiro recém-chegado. A resposta direta é: na maioria dos casos, sim — se vais pelo Concurso Nacional (Via 1).
O que são as provas de ingresso
As provas de ingresso são exames nacionais específicos, ligados a disciplinas do ensino secundário português, que cada curso superior exige. Por exemplo:
- Medicina: Biologia e Geologia + Físico-Química + Matemática A (em geral 3 provas)
- Engenharias: Matemática A (e por vezes Físico-Química)
- Direito
- Direito: Português + outra à escolha (História, Filosofia ou similar)
- Psicologia: Português + Biologia e Geologia (ou Matemática Aplicada às Ciências Sociais)
- Gestão / Economia: Matemática A (e por vezes Economia)
🆕 Atualização 2026: o Governo aprovou em janeiro de 2026 um decreto-lei que devolve às instituições a possibilidade de exigirem entre 1 e 3 provas de ingresso (em vez do mínimo de 2 que tinha sido imposto em 2023). Isto significa que muitos cursos vão passar a pedir só uma prova, o que reduz a tua carga de trabalho. Confirma sempre o número de provas exigidas para o curso e instituição que pretendes na fonte oficial.
A nota mínima em cada prova de ingresso é tipicamente 9,5 valores (em 20) ou o equivalente em escala 0-200, mas alguns cursos exigem mais.
Quando podes substituir os exames portugueses por exames brasileiros
Se vais pela Via 1 (Concurso Nacional) mas concluíste o ensino médio no Brasil, podes pedir a substituição das provas de ingresso por exames finais estrangeiros — desde que cumpras três condições cumulativas:
- Os exames brasileiros têm de ter âmbito nacional (ENEM, basicamente).
- Têm de ser exigidos para acesso ao ensino superior no Brasil.
- Têm de ter conteúdos compatíveis com a prova de ingresso portuguesa que estás a substituir.
Na prática, o ENEM pode substituir muitas provas de ingresso, mas nem todas, nem para todos os cursos. Por exemplo, para Medicina costuma ser exigido fazer mesmo os exames portugueses, dada a especificidade dos conteúdos.
O pedido de substituição é submetido através do sistema de candidatura online, no momento em que pedes a senha de acesso.
Quando tens mesmo de fazer os exames portugueses
Se estás na Via 1 e a substituição não for aceite (por incompatibilidade de conteúdos), ou se queres maximizar a tua nota de candidatura, vais ter de te inscrever nos exames nacionais portugueses.
Mesmo que possas substituir, muitos brasileiros optam por fazer os exames portugueses porque conseguem notas mais altas nestes exames preparando-se especificamente para eles — e isso traduz-se numa nota de candidatura mais competitiva.
Como te inscreves nos exames (PIEPE)
A inscrição faz-se através da PIEPE — Plataforma de Inscrição Eletrónica em Provas e Exames, em jnepiepe.dge.mec.pt. Os exames têm normalmente duas fases:
- 1.ª fase (junho/julho): obrigatória se queres usar a nota para a candidatura ao ensino superior.
- 2.ª fase (julho): para melhoria de nota ou para quem não atingiu o mínimo na 1.ª fase.
👉 Se ainda não sabes que exames precisas de fazer, vale a pena tirar 15 minutos para fazer um diagnóstico antes de mais nada. Na Atlas criámos um plano de preparação para exames nacionais adaptado a brasileiros — começamos por perceber para que carreira queres ir e depois construímos um caminho à medida.
Candidatura ao ensino superior passo a passo (Concurso Nacional)
Vamos ao processo, na ordem real em que acontece. Estou a assumir que estás na Via 1.
Passo 1: Pedir a senha
A primeira coisa é pedir uma senha de acesso ao sistema de candidatura online no site da DGES (agora IES, I.P.). Esta senha é o teu identificador para tudo: inscrição em exames, candidatura, consulta de resultados.
Para brasileiros com ensino secundário estrangeiro, o pedido inclui o envio de documentos:
- Cópia do documento de identificação
- Cópia do certificado de equivalência (sim, é por isto que tens de tratar da equivalência primeiro)
- Eventual pedido de substituição de provas de ingresso por exames estrangeiros (ENEM)
Passo 2: Inscrição em exames (se aplicável)
Se vais fazer exames nacionais portugueses, regista-te na PIEPE entre março e abril (consulta o calendário oficial cada ano). Inscreves-te nos exames específicos exigidos pelos cursos a que pretendes concorrer.
Passo 3: Realização dos exames
Os exames nacionais decorrem em junho e julho. Depois disto, recebes a Ficha ENES — um documento com a tua classificação consolidada que vais precisar para a candidatura.
Passo 4: Submissão da candidatura
A candidatura propriamente dita é feita online, no portal da DGES, e é simples: escolhes até 6 pares instituição/curso, ordenados por preferência. O sistema vai colocar-te na opção mais alta para a qual tens nota suficiente, dentro das vagas disponíveis (numerus clausus).
Passo 5: As fases do concurso
O concurso decorre em três fases, e cada fase tem prazos distintos:
1.ª fase (a mais competitiva, com mais vagas):
- Estudantes com ensino secundário português: 21 de julho a 4 de agosto de 2026
- Estudantes com ensino secundário estrangeiro (e/ou pedido de substituição de provas): 21 a 28 de julho de 2026
2.ª fase (vagas que sobraram da 1.ª): em setembro.
3.ª fase (poucas vagas residuais): em outubro, e nem todos os cursos abrem.
Os resultados da 1.ª fase saem normalmente no início de setembro. Tens depois alguns dias para fazer a matrícula e inscrição na universidade onde fores colocado.
Requisitos e notas: o que precisas para entrar
Nota mínima de candidatura
O mínimo legal é 95 pontos (em 200). Mas isto raramente é suficiente para os cursos mais procurados.
Para teres uma ideia da realidade, eis algumas notas indicativas da última colocação na 1.ª fase do concurso (variam de ano para ano e de instituição para instituição):
- Medicina (ULisboa, UPorto, Coimbra): tipicamente acima de 180 pontos, podendo ultrapassar 190.
- Engenharia Informática (IST, FEUP): entre 165 e 185 pontos.
- Arquitetura (FAUP, FAULisboa): entre 155 e 175 pontos.
- Direito (FDL, FDUC, FDUP): entre 150 e 170 pontos.
- Psicologia (FPUL, FPCEUP): entre 150 e 170 pontos.
- Gestão (NOVA SBE, ISCTE, ISEG): entre 155 e 180 pontos.
Numerus clausus: porque é que a nota sobe tanto
Cada curso em cada instituição tem um número limitado de vagas (numerus clausus) fixado anualmente. Quando há mais candidatos do que vagas — e em cursos como Medicina há muitos mais — a nota da última colocação sobe.
Em 2025/2026 foram fixadas no total cerca de 101.798 vagas em licenciaturas e mestrados integrados nas instituições públicas e privadas. Em Medicina, especificamente, foram criadas mais 130 vagas, das quais 86 no concurso especial para estudantes internacionais.
Exames específicos: como saber quais precisas
Cada curso fixa as suas próprias provas de ingresso. A regra geral:
- Engenharias e Ciências Exatas → Matemática A é quase sempre obrigatória.
- Ciências da Saúde → Biologia e Geologia + Físico-Química.
- Humanidades e Ciências Sociais → Português + uma à escolha (Filosofia, História, etc.).
- Economia/Gestão → Matemática A (e por vezes Economia).
Confirma sempre na página oficial do curso que pretendes — as combinações exatas mudam de instituição para instituição.
Os 5 erros mais comuns dos brasileiros (e como evitá-los)
Já vi todos estes erros a destruir candidaturas que tinham tudo para correr bem. Aqui ficam, por ordem de impacto.
Erro 1: Não tratar da equivalência a tempo
A equivalência demora 2 a 4 meses. Se a deixas para maio, não chegas a tempo da candidatura de julho. Trata disto assim que te decides a candidatar.
Erro 2: Confundir "tempo em Portugal" com "tempo legal contínuo"
Já estiveste em Portugal há 3 anos? Ótimo, mas isso não basta. O que conta é o tempo de residência legal e ininterrupta. Se tiveste lacunas entre autorizações de residência (renovações atrasadas, mudanças de tipo de visto, etc.), pode não ser tempo contínuo aos olhos da lei. Trata da regularização cedo e mantém todos os comprovativos.
Erro 3: Escolher os exames errados
Muitos brasileiros inscrevem-se em exames sem confirmar quais são exigidos pelo curso a que querem concorrer. Resultado: ficam impedidos de concorrer àquele curso na 1.ª fase. Confirma sempre as provas de ingresso fixadas pela instituição antes de te inscreveres.
Erro 4: Subestimar os exames portugueses
O ENEM e os exames nacionais portugueses são muito diferentes em estrutura, conteúdos e nível de exigência. Em particular:
- Matemática A é mais densa que a Matemática do ENEM.
- Português foca muito em literatura clássica portuguesa (Camões, Pessoa, Saramago) que não estudaste no Brasil.
- Os exames de Físico-Química e Biologia e Geologia seguem programas curriculares específicos do ensino secundário português.
Sem preparação direcionada, mesmo um aluno excelente do Brasil pode tirar uma nota medíocre. Não é falta de inteligência — é falta de familiaridade com o sistema.
Erro 5: Confundir as duas vias
Já cobrimos isto, mas vale a pena repetir: muitos brasileiros entram no Concurso Especial para Estudantes Internacionais sem saberem que poderiam ter entrado pelo Concurso Nacional (com propinas até 10x mais baratas). Faz o teu fluxograma. Confirma com a universidade. Se for o caso, trata do Estatuto de Igualdade.
Histórias reais: dois caminhos diferentes
Aqui ficam dois casos que ilustram bem as duas vias possíveis. Os nomes foram alterados, mas as situações são típicas.
Caso 1: A Camila e o caminho do Concurso Nacional
A Camila tem 19 anos, é de São Paulo e mudou-se para Lisboa com a família em 2022, com autorização de residência. Concluiu o ensino médio no Brasil em 2023 com média 8,5.
Quando chegou a 2024, começou a planear a entrada na universidade — e percebeu uma coisa fundamental: como já estaria em Portugal há mais de 2 anos legais e contínuos a 31 de agosto de 2025, podia concorrer pelo Concurso Nacional, pagando propina de portuguesa.
Pediu a equivalência logo em janeiro de 2025 (recebeu em abril). Inscreveu-se na PIEPE para fazer Português e Matemática A — as provas exigidas para Gestão na NOVA SBE. Fez um curso preparatório com foco específico nestas duas provas durante 6 meses.
Resultado: 16 valores em Matemática A, 14 em Português, nota de candidatura final de 165 pontos. Entrou em Gestão na NOVA SBE com a propina de 697 €/ano.
Se tivesse ido pelo Concurso Internacional, teria pago cerca de 7.000 €/ano (mais de 21.000 € em 3 anos). A diferença? Saber qual era a sua via e preparar-se para ela.
Caso 2: O Rafael e o caminho do Concurso Internacional
O Rafael tem 18 anos, é do Rio de Janeiro, e veio a Portugal especificamente para estudar — chegou em janeiro de 2026, com visto de estudo. Não tem dupla nacionalidade, não cumpria os 2 anos de residência legal, e ainda não tinha (nem podia ter) Estatuto de Igualdade.
Para ele, a única via realista era o Concurso Especial para Estudantes Internacionais. Fez o ENEM em novembro de 2025 e tirou uma nota global de 620 pontos, com 740 em Matemática.
Candidatou-se a três universidades que aceitam o ENEM: Universidade de Coimbra, Universidade do Minho e Universidade do Algarve. Foi aceite em Engenharia Informática na Universidade do Minho com a propina de estudante internacional: 3.500 €/ano.
O Rafael pagaria cerca de 20.000 € no total da licenciatura. Numa universidade pública portuguesa, com qualidade europeia. Mais caro que a Camila, mas ainda muito mais acessível que muitas universidades privadas no Brasil ou universidades nos EUA.
A moral das duas histórias: as duas vias são legítimas. A diferença está em saber qual é a tua antes de tomares decisões — e preparares-te com o caminho certo.
Como aumentar as tuas hipóteses de entrar
Se chegaste até aqui, já estás à frente de 80% dos candidatos. Agora vamos à execução. Três princípios.
- Estratégia de candidatura:usa as 6 opções com cabeça. No Concurso Nacional concorres a até 6 pares instituição/curso. A regra de ouro:
- Opções 1 e 2: o teu sonho (cursos com nota acima da tua).
- Opções 3 e 4: cursos realistas (nota da última colocação no ano anterior próxima da tua estimativa).
- Opções 5 e 6: cursos "rede de segurança" (nota claramente abaixo da tua).
Não desperdices opções todas no mesmo nível. É a melhor forma de ficares fora da 1.ª fase.
- Preparação dirigida aos exames certos. Não estudes "matemática em geral" — estuda Matemática A com base em exames portugueses dos últimos 5 anos. A IAVE (entidade que faz os exames) disponibiliza todos os enunciados antigos. Resolve-os, cronometra-te, identifica as tuas falhas, repete.
- Conhece as ponderações dos cursos a que concorres. Nem todos os cursos dão o mesmo peso ao secundário e às provas. Em alguns, as provas valem 50%; noutros, 35%. Se a tua média do secundário for fraca, prioriza cursos onde as provas têm mais peso (e foca-te em arrasar as provas).
Conclusão: os teus próximos passos concretos
Vamos resumir o caminho — e depois quero deixar-te com uma coisa prática para fazeres ainda hoje.
- Identifica a tua via (Concurso Nacional ou Internacional). É a decisão mais importante.
- Trata da equivalência do ensino secundário, se ainda não tens.
- Pede o Estatuto de Igualdade na AIMA, se cumpres os requisitos e ainda não tens.
- Confirma quais são as provas de ingresso dos cursos a que pretendes concorrer.
- Decide se vais usar exames portugueses ou substituí-los pelo ENEM.
- Inscreve-te na PIEPE (se vais fazer exames portugueses) e pede a senha de acesso à DGES.
- Prepara os exames com material específico português.
- Submete a candidatura na 1.ª fase com estratégia de 6 opções.
Hoje mesmo: abre o site oficial do curso a que mais queres entrar (na universidade que mais queres) e descobre quais são as provas de ingresso fixadas. Anota-as. Esse é o ponto de partida real do teu plano.
🎯 E se ainda não sabes que carreira escolher, ou que exames precisas de fazer?
Na Atlas ajudamos brasileiros como tu a tomar estas decisões com cabeça e a preparar-se com confiança. O nosso método combina orientação vocacional (para perceberes que carreira faz sentido para ti) com preparação focada nos exames nacionais (com tutores portugueses que conhecem o sistema por dentro).
👉 Descobre o teu plano para entrar na universidade em Portugal
Perguntas frequentes (FAQs)
Preciso de fazer equivalência do ensino brasileiro em Portugal?
Sim, em todos os casos. Independentemente de ires pelo Concurso Nacional ou pelo Especial para Internacionais, o teu certificado do ensino médio brasileiro tem de ser reconhecido como equivalente ao ensino secundário português. O pedido faz-se numa escola pública secundária portuguesa ou na DGE.
Os brasileiros têm mesmo de fazer exames nacionais em Portugal?
Depende da via. Se vais pelo Concurso Nacional, sim — mas em muitos casos podes substituir por exames brasileiros (ENEM), desde que cumpram os critérios da DGES. Se vais pelo Concurso Especial Internacional, não fazes exames portugueses — usas o ENEM (em universidades que o aceitem).
O que é a nota de candidatura?
É a nota com que concorres ao ensino superior, numa escala de 0 a 200 pontos. Calcula-se a partir da classificação do ensino secundário (50%-65%) e das provas de ingresso (35%-50%). A nota mínima legal para entrar é 95 pontos.
Como funciona a candidatura à universidade em Portugal?
A candidatura é feita online, através do sistema centralizado da DGES (atual IES, I.P.). Escolhes até 6 pares instituição/curso, ordenados por preferência, e o sistema coloca-te na opção mais alta para a qual tens nota suficiente, dentro das vagas disponíveis. O concurso tem 3 fases (julho-outubro).
Posso entrar na universidade em Portugal sem exames?
Geralmente não. Pelo Concurso Nacional precisas de provas de ingresso (portuguesas ou substituídas por ENEM). Pelo Concurso Internacional precisas de uma prova de avaliação aceite pela universidade — em muitas, é o ENEM, mas algumas exigem provas próprias.
Quanto custa estudar em Portugal sendo brasileiro?
Numa universidade pública: como estudante nacional ou equiparado, 697 €/ano numa licenciatura. Como estudante internacional, 3.000 € a 7.500 €/ano, dependendo do curso e da universidade.
Posso usar a nota do ENEM para qualquer curso em Portugal?
Não. O ENEM é aceite em mais de 50 instituições portuguesas, mas cada universidade define os cursos elegíveis e a nota mínima exigida (tipicamente 500 pontos no global, com mínimos por área). O curso de Medicina tradicional não aceita ENEM — é necessário fazer o exame nacional português.
Quanto tempo demora a obter o Estatuto de Igualdade de Direitos e Deveres?
O processo é gratuito e pede-se na AIMA (Agência para a Integração, Migrações e Asilo). Os tempos de resposta variam, mas em condições normais demora entre 3 e 6 meses. Precisas de ter o título de residência válido, ser maior de idade, e apresentar o certificado de nacionalidade emitido pelo Consulado do Brasil.